segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Nutrição das plantas e qualidade do solo do pomar

As plantas alimentam-se principalmente através da fotossíntese. Se formos analisar a matéria vegetal em termos químicos, encontramos maioritariamente na sua composição oxigénio (60-70%), carbono (10-18%) e hidrogénio (5-10%), que a planta fixa através da fotossíntese. No entanto, para os processos de fixação destes elementos e para outras funções, são necessários outros elementos minerais.

Em segundo lugar, a planta alimenta-se através das raízes, no solo. A planta absorve maioritariamente elementos minerais mas, para os absorver necessita que estejam dissolvidos na chamada solução do solo (um caldo feito de água e nutrientes dissolvidos). Esta solução nutritiva depende das características químicas, físicas e biológicas do solo, para além da disponibilidade de água. A riqueza química das partículas do solo é importante porque determina os nutrientes disponíveis para a os organismos do solo; as características físicas do solo determinam o espaço disponível para a solução nutritiva e para a respiração das raízes e dos organismos do solo; a biologia existente no solo determina a qualidade dos ciclos de nutrientes e a disponibilização destes para as plantas, e o estado de saúde das plantas.


No solo, as plantas alimentam-se absorvendo diversos elementos minerais, em diferentes quantidades mas com importância idêntica. Isto significa que tão importante é o azoto, fósforo e o potássio, pomposamente chamados de macronutrientes principais, como o cálcio, o magnésio e o enxofre, chamados macronutrientes secundários, como os humildes boro, molibdénio, cloro, ferro, manganês, zinco e cobre, chamados micronutrientes, ou ainda outros elementos designados como benéficos, e todos aqueles que (ainda) não mereceram sequer classificação agronómica, como as terras raras. A importância é a mesma, embora as quantidades necessárias sejam muito diferentes. Quando falta qualquer deles, fica comprometido o desempenho da planta. Resumindo, as plantas desenvolveram-se neste planeta, com todos os elementos químicos constituintes da crosta terrestre e com toda a biologia que nela existe. Uma nutrição adequada é uma nutrição global. Dito isto, vamos compartimentar, por razões práticas.


Em terceiro, as plantas alimentam-se também através das folhas, sendo possível através de pulverizações foliares corrigir deficiências de micronutrientes, ou fornecer nutrientes que aumentem a sua capacidade de resposta imunitária. É o caso, por exemplo, da pulverização com solução de algas marinhas, ou de chá de cavalinha.



Azoto

Elemento fundamental na formação do pomar. Entre os elementos minerais, está no grupo dos mais consumidos. Na matéria seca, representa 0,3 a 5% do total. É essencial na formação da clorofila, dos aminoácidos e proteínas e das nucleoproteínas (reprodução). Quando em falta, as folhas ficam amareladas, por falta de clorofila e não se desenvolvem os tecidos da planta. É essencial ao crescimento e à formação das árvores.

Na natureza, as contribuições de azoto provêm da decomposição das plantas (por exemplo, das herbáceas chamadas infestantes), das dejecções de animais (domésticos e selvagens) e da fixação a partir da atmosfera. Neste último caso, poderemos pensar em fixação simbiótica (por exemplo, a simbiose entre a bactéria Rhizobium e várias espécies de leguminosas, como o tremoço), fixação não simbiótica (diversas bactérias existentes no solo, dos géneros Clostridium, Azotobacter, Beijerinckia e Rhodospirillum, e algas verde-azuladas) e incorporação de azoto com a água das chuvas, principalmente de trovoadas. Este azoto é disponibilizado para as plantas directamente, ou através dos ciclos biológicos.


O azoto é solúvel em água, sendo por isso um potencial poluente das águas subterrâneas (nitratos).

Sendo essencial a sua aplicação, o seu excesso é muito prejudicial provocando, entre outros problemas, elevados ataques de afídeos (piolhos) e mosca branca. O seu fornecimento deve ser feito prioritariamente pela aplicação de composto bem compostado (a cheirar a terra). Este tem a vantagem de fornecer muitos outros nutrientes também essenciais ao desenvolvimento das plantas e, sobretudo, aumentar os ciclos biológicos do solo que são os responsáveis pela nutrição equilibrada. À plantação, na cova da árvore, deve ser aplicado um composto muito bem compostado, com muito pouco azoto na sua composição. No final do inverno, de preferência, um pouco antes da rebentação, deve ser aplicado um adubo orgânico mais rico em azoto (5-10%), junto ao solo, por baixo da palha junto à árvore.

Este nutriente pode também ser disponibilizado através de fertilizantes líquidos, sempre orgânicos e integrais (por exemplo, o resíduo da indústria da beterraba açucareira).

Há no mercado vários produtos, com mais ou menos azoto, em formas mais ou menos disponíveis para as plantas. Durante a formação das árvores é aconselhável fornecer quantidades razoáveis de azoto, variando com a espécie e variedade. Em agricultura biológica e permacultura é, no entanto, mais prejudicial o excesso do que a escassez. É melhor basear as quantidades a aplicar nas tabelas oficiais, aplicando apenas 50-60% do indicado. Em caso de excesso, ocorrerão fortes ataques de afídios (piolho) nos jovens rebentos das árvores, prejudicando gravemente o seu desenvolvimento. A fertilização deve ser também fraccionada, ou seja, a dose oficial indicada deve ser dividida, aplicando uma pequena quantidade de cada vez, começando antes do abrolhamento.

Pode também ser feita aplicação foliar com algas, como mencionado acima. Tem a vantagem de conter muitos outros micronutrientes, para além do azoto.



Fósforo

Absorvido em quantidades muito menores que o azoto (0,1 a 0,4%), mas essencial para o metabolismo das plantas (mecanismos de absorção dos nutrientes e síntese de lípidos). É um componente estrutural de vários compostos bioquímicos das plantas. É indispensável para o crescimento das raízes e também de folhas e ramos.

A adubação fosfatada deve ser feita antes da plantação e sempre com rocha fosfatada moída (fertigafsa). Todas as adubações minerais devem ser feitas com rochas moídas, porque é esta a forma que os microrganismos de solo estão preparados para digerir e integrar nos seus tecidos e ciclos, transformando os minerais em formas absorvíveis pelas plantas. A aplicação de fosfatos solúveis (como os superfosfatos) provoca diminuição da biologia do solo e inibe a relação simbiótica das micorrizas com as raízes das plantas, com efeitos negativos a vários níveis.


Em solos calcários, será sempre preferível fazer a aplicação de fósforo através de adubos orgânicos ricos neste elemento, porque o calcário reage com o fósforo mineral, originando compostos altamente insolúveis, indisponibilizando-o para as plantas. Com os adubos orgânicos ricos em fósforo, isso não acontece.



Potássio

É absorvido em grande quantidade (1 a 5%) e desempenha uma acção importante em vários mecanismos da planta: fotossíntese, resistência à secura, resistência a doenças e pragas, metabolismo dos glúcidos, do azoto e da síntese de proteínas, controlo da actividade de vários constituintes minerais, permite a manutenção do equilíbrio de pH da seiva das árvores, participa na activação de enzimas, promove o crescimento dos tecidos e aumenta a qualidade dos frutos.

Os solos têm geralmente algum potássio na sua constituição e este, como o fósforo, é tanto mais disponibilizado quanto melhor funcionarem os ciclos biológicos.

É geralmente fornecido sob a forma de rochas moídas, ou de cinza de lenha.


Cálcio e magnésio

O cálcio é geralmente um elemento esquecido, de forma irresponsável. Na realidade, nos laboratórios de química agrícola só o têm em consideração quando o pH do solo é muito baixo e é considerado adequado fazer uma calagem (adição de calcário para aumentar o pH do solo, quando este é ácido). Mas este elemento é absolutamente essencial para uma boa estrutura do solo (um solo bom é um solo que se esboroa) que, por sua vez, é essencial para uma boa nutrição das plantas e para uma microbiologia favorável do solo. É também essencial à microbiologia do solo e a macrorganismos, nomeadamente as minhocas. Nas plantas, as quantidades na matéria seca variam geralmente entre 0,5 e 3%. Faz parte de todas as células da planta, é essencial para a estabilidade das membranas celulares, no controlo da absorção de outros nutrientes, como o azoto, na translocação dos glúcidos dentro da planta, favorece o crescimento e divisão celular, etc. A sua deficiencia traduz-se no atrofiamento do crescimento das raízes e dos ramos novos.

O magnésio representa 0,1 a 0,5% da matéria seca das plantas. Sendo o único constituinte mineral da clorofila, é indispensável às plantas e a sua escassez reflecte-se na fotossíntese. Actua também de forma determinante na síntese de proteínas, determina a actividade de diversas enzimas e determina o teor em óleos essenciais das plantas.


A relação cálcio/magnésio no complexo de troca dos solos (um parâmetro das análises de solo) é também muito importante para a estrutura destes devendo ser sempre superior a 2.



Enxofre

Encontra-se entre 0,1 e 0,4% na matéria seca das plantas. É componente de aminoácidos essenciais, de vitaminas, da coenzima-A e das ferredoxinas que ocorrem nos cloroplastos (onde se faz a fotossíntese), intervém na formação de enzimas, etc. Não sendo um constituinte da clorofila, é essencial para a sua formação. É necessário para a microbiologia do solo e para a formação de diversas relações simbióticas com as plantas. Forma compostos voláteis responsáveis pelos aromas e influi na formação de óleos. Controla também o metabolismo do azoto, diminuindo a acumulação de nitratos e amidas (que atraem os insectos que atacam as plantas). O enxofre é fornecido através da fertilização orgânica, da ciclagem dos resíduos vegetais e dos pós de rocha.


Ferro, manganês, zinco, cobre, boro, molibdénio, cloro, sódio, silício, cobalto, almínio, vanádio, selénio, níquel, flúor, bromo, iodo

Neste grupo temos elementos essenciais às plantas, mas em menor quantidade. Assim, por exemplo, o boro é essencial na regulação da transpiração e no vingamento das flores; o molibdénio é essencial para o metabolismo do azoto; o ferro é essencial para a fotossíntese; o manganês, o cobre  e o zinco para os sistemas enzimáticos; o sódio aumenta a fotossíntese, aumentando o teor em açúcares; o cobalto é indispensável aos microrganismos fixadores de azoto, simbióticos ou não, e a muitos outros, no solo.

Os elementos deste grupo, sendo igualmente importantes, são fornecidos geralmente através do composto, de pós de rocha ou da activação da microbiologia do solo.

Por vezes o boro é fornecido por aplicação foliar, em caso de carência comprovada que não se consiga resolver em tempo útil através da intervenção no solo.


Crómio, rubídio, cobre, titânio, bário, estrôncio, zircónio, níquel, arsénio, lítio, chumbo, cádmio, césio, selénio, mercúrio e outros...

Todos eles fazem parte da constituição das plantas, alguns em quantidades muito diminutas, na ordem dos 0,0000001%. Intervêm nos processos de todas ou de algumas plantas e são necessários em quantidades tão diminutas que geralmente são esquecidos. No entanto, em solos onde se faça agricultura há muito tempo, pode haver carência. Esta não é facilmente observável, mas reflete-se no desempenho e no estado sanitário das plantas. O seu fornecimento é assegurado através de incorporação de pós de rochas.


Em forma de conclusão, ainda não são conhecidos todos os nutrientes minerais e orgânicos necessários às plantas, mas não é essencial conhecê-los. O importante é que sejam disponibilizados minerais completos ao solo, sob a forma de pós de rocha, e incentivada a biologia do solo para que estes entrem nos ciclos biológicos e estejam disponíveis para as plantas onde e quando necessários. A nutrição das plantas é essencial, mas depende da nutrição do solo e dos ciclos biológicos nele existentes. O solo actua como o sistema digestivo e imunitário das plantas. A saúde actual e futura das árvores que estamos a formar depende da forma como gerimos o ambiente solo.


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