segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

A FORMAÇÃO DE UM POMAR

Pensando num pomar de árvores plantadas (árvores de viveiro, não semeadas no local)...

Geralmente são árvores enxertadas, isto é, feitas de duas ou mais plantas, "coladas". Primeiro é reproduzido o porta-enxerto, de semente ou de estaca. Este é escolhido pelas características do seu sistema radicular, a sua capacidade de adaptação ao solo, e/ou resistência a doenças. Depois, é enxertada a variedade pretendida (escolhida pelas características dos seus frutos), introduzindo o seu material vegetativo (ramo) na madeira do porta-enxerto (por baixo).



Ficamos assim com uma árvore, que na realidade são duas coladas! Depois do ramo enxertado ter criado um ramo novo, podem plantar-se as árvores.

Como exemplo, macieiras e pereiras são muitas vezes enxertadas em marmeleiro ou em pereira brava, os pessegueiros podem ser de semente ou enxertados em ameixeira. Há também porta-enxertos adaptados a determinadas características de solo ou resistentes a algumas doenças, como o M111 e o M106, para a macieira, por exemplo.


Árvores plantadas de "raiz nua"

As árvores de folha caduca podem plantar-se de raiz nua. Ou seja, durante o Inverno, em época de dormência, são arrancadas do chão do viveiro para virem a ser plantadas no local definitivo, no pomar.








Não trazem terra nem torrão. Isto significa que uma parte importante das raízes fica no solo, no local onde cresceu inicialmente o porta-enxerto e que se produzem lesões no local onde as raízes partiram. Este tipo de plantação é, no entanto, vantajoso porque permite uma melhor adaptação das raízes da árvore ao local onde é plantada, porque é estimulada a criar novas raízes no novo local.






Primeiros cuidados: ter sempre as árvores hidratadas e ao abrigo da luz, principalmente as raízes. As raízes foram criadas debaixo de solo onde não é suposto entrarem em contacto com a luz do sol, que lhes é prejudicial, por isso há que protegê-las da luz solar, de preferência cobrido-as com um saco de serapilheira. Antes da plantação, deve olhar-se bem para o estado das raízes, e, para além de se cortar todas as que estejam partidas, deve-se também cortar as pontas das restantes. Isto porque cada um destes cortes limpos vai sarar muito mais rapidamente do que uma lesão irregular, e também porque vai estimular o crescimento de novas raízes a partir desses tecidos.






De seguida, é aconselhável mergulhar as raízes numa solução que ajude a cicatrizar e a inocular com a microbiologia certa. Pode-se usar uma mistura de terra argilosa, bosta de vaca (de preferência fresca porque tem mais microrganismos benéficos) e chá de cavalinha, onde se mergulham as raízes e depois se deixam secar à sombra, de preferência com umas sacas ou panos por cima, para não desidratarem com o vento ou sol.






Plantação:

Durante o Outono/Inverno pode ser feita a plantação destas árvores de raiz nua, de preferência quando não haja geada. Na altura da plantação, é aconselhável misturar um preparado de micorrizas no solo junto às raízes. Estas micorrizas são fungos simbióticos, que vão interagir com as raízes, fornecendo-lhes vários nutrientes essenciais e, em maior quantidade, água e fósforo, principalmente em solos com baixas quantidades neste elemento (quase todos). Na natureza, as sementes que caem ao solo são inoculadas naturalmente durante a sua germinação. As raízes destas árvores que plantamos não trazem estas relações simbióticas de origem e, sendo este sistema de criação de um pomar, ou floresta de alimentos, um processo não natural, precisa de alguma ajuda para se naturalizar o mais rapidamente possível. As micorrizas são aplicadas geralmente como um pó ao solo junto às raízes. No caso de plantas em vaso, mergulham-se os vasos numa solução com micorrizas.




Profundidade de plantação


A árvore tem uma parte aérea, que gosta e precisa de sol e arejamento e uma parte radicular que não deve receber sol e teme a desidratação. Na fronteira entre ambas, exactamente onde termina a raíz e se inicia o tronco, existe uma zona chamada colo da planta. 


Esta zona é crucial na plantação e é muito sensível a doenças causadas por excesso de humidade. Esta é a zona que deve ficar imediatamente acima do solo, tendo o cuidado de enterrar bem as raízes. Geralmente deve-se plantar num montículo um pouco acima da superfície do solo, porque após a plantação a terra tem tendência a compactar novamente e, se não tivermos tido o cuidado de plantar mais alto, o que pode suceder é que a nossa árvore acabe por ficar numa cova, que encharca e as raízes podem morrer por falta de oxigenação.






No momento da plantação convém que o ponto de enxertia fique virado para sul. Este ponto representa a ligação entre o porta-enxerto e a árvore. Sendo uma lesão cicatrizada é sempre um local sujeito a problemas de fungos em caso de acumulação de humidade. Em locais ventosos é importante prender a árvore com um tutor, no momento da plantação para evitar que a árvore se parta no ponto de enxertia, o seu ponto mais frágil. Após a plantação, deve colocar-se à volta da árvore palha, folhas secas ou outro material de cobertura de solo, deixando, junto ao tronco, uma abertura de cerca de 10 centímetros, para não acumular humidades junto ao colo. A palhagem é importante por variados motivos, dos quais realçamos a estabilização da temperatura do solo junto às raízes, a protecção do impacto das gotas da chuva que criam uma crosta superficial no solo impedindo a respiração por parte das raízes e microrganismos, e ainda a protecção dos organismos do solo e das raízes relativamente à radiação solar, que lhes é nociva. Na natureza todos os solos têm uma camada vegetal de cobertura.







Árvores plantadas com torrão, vaso, etc.

Há fruteiras que são adquiridas em vaso. É o caso da generalidade das árvores de folha persistente, como os citrinos, mas também pode ser feito com árvores de folha caduca. Se houver possibilidade de rega, podem ser plantadas em qualquer época do ano.
Estas árvores vêm com a raiz protegida, envolta em substrato, em vaso ou em sacos de plástico pretos. A raíz deve ser observada cuidadosamente. Se estiver enrolada, significa que passou tempo demais nesse vaso e deve ser desenrolada com cuidado ou cortada na zona imediatamente antes do enrolamento. Uma árvore plantada com uma raiz enrolada nunca a irá desenrolar, independentemente dos anos que viva. Por vezes, uma árvore plantada desta forma vive alguns anos e depois morre repentinamente sem qualquer razão aparente. Isto acontece no momento em que a raíz se estrangula a si própria. Por vezes, é simplesmente uma árvore fraca, que se desenvolve pouco porque não se consegue alimentar devidamente, e que é muito atacada por insectos. Grande parte dos problemas fitossanitários que podemos encontrar num pomar explicam-se por problemas nas raízes das árvores ou do solo.
Em geral estas árvores têm mais dificuldade em expandir as raízes em solo novo, principalmente se este for de fraca qualidade.


Após a plantação

Poda

A partir da Primavera, a rebentação das árvores é cuidadosamente observada. Lembremo-nos que as raízes foram cortadas e ainda não tiveram oportunidade de se recompor, o que significa que pode não haver alimento para todos os ramos e folhas que a árvore (no ano anterior, quando ainda tinha todo o seu sistema radicular intacto) pensou que poderia alimentar, enviando mensagens (químicas) aos seus gomos para essa finalidade. Isto significa que, numa árvore recém plantada temos sempre mais gomos aptos para desenvolver ramos e folhas do que aqueles que as suas raízes podem alimentar. Neste caso, se a rebentação for muito vigorosa, teremos de intervir de imediato, quer cortando pequenos pedaços de madeira, quer eliminando raminhos que iniciam o seu desenvolvimento. Mais tarde, poderemos ainda fazer uma desponta, ou seja, cortamos a extremidade (gomo apical) em ramos verdes que não queremos que se alonguem. O ramo pára de crescer e a árvore investe a sua energia nas raízes e na produção de frutos. Numa poda que se quer de reequilíbrio e de adaptação ao local onde as árvores foram plantadas, é dada uma atenção fundamental às.... raízes. As raízes das árvores estão directamente ligadas aos seus ramos. Ou seja, quando uma raiz morre, morre também o ramo directamente afectado, e vice-versa, ou seja, se cortamos um ramo, morre a raiz a ele ligada. Mais especificamente, quando cortamos o ramo central, vertical de uma árvore, estamos a cortar a raíz profundante principal. Pelo que foi exposto acima se compreende que a zona mais fragilizada da árvore nesta altura é o sistema radicular. Se queremos que ele se desenvolva amplamente, não poderemos exagerar na madeira cortada de uma só vez. Assim, a poda de formação permacultural deve ser feita, preferencialmente, três a quatro vezes num ano, em várias época, dando "toques" à árvore, de acordo com o seu desempenho e resposta.


Ramos ladrões (que rebentam abaixo da zona de enxertia, ou seja, a partir da planta porta-enxerto) são eliminados prontamente, quanto mais cedo melhor, e o corte deve ser limpo e o mais junto ao tronco principal possível, para evitar novo rebento no local. Atenção, que estes rebentos ladrões vão surgindo sempre ao longo de toda a época de desenvolvimento vegetativo da árvore. A razão pela qual é tão importante a sua eliminação, é que estes provêm da árvore que tem as raízes na terra, ou seja, esta planta prefere desenvolver os seus próprios ramos em vez dos ramos da outra que lhe foi imposta (enxertada). Mas nós queremos os frutos da variedade enxertada (melhorada para os frutos que pretendemos), pelo que temos de dirigir a sua energia para esta. Se deixarmos crescer os ramos ladrões, o que irá suceder é o definhamento da árvore enxertada e o fortalecimento da árvore porta-enxerto.



Infestantes ou cobertura do solo?

Deveremos manter consciente que as ervas da entrelinha estão a contribuir para trazer fertilidade ao nosso solo e às nossas plantas. Na linha de plantação, por outro lado, já terá de ser avaliado caso a caso. Como foi referido acima, deve ser feito empalhamento à volta das árvores, com um raio de cerca de um metro. Isto permite, para além das vantagens referidas, evitar o crescimento de infestantes junto às raízes das árvores recém-plantadas. As espécies e variedades de fruteiras muito vigorosas, geralmente no segundo ano já não temem as infestantes e basta cortar as herbáceas e deixar por cima a cobrir o solo. Na entrelinha, o solo deve manter-se coberto, sempre. Por vezes são efectuadas sementeiras para sideração, ou seja, semeiam-se plantas com características melhoradoras e/ou fertilizantes, que depois são enterradas ou apenas cortadas (melhor). Este processo tem a grande vantagem de aumentar rapidamente a actividade biológica do solo, principalmente em solos que foram cultivados com uso de pesticidas e adubos químicos. Tem, no entanto, desvantagens na erosão, formação de crosta superficial no solo e num aumento súbito da biologia microbiana do solo que pode não ser sustentada num segundo momento.

A nutrição está debatida num outro post.








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